É Onça ou Cegonha?

Em pleno fim de tarde, Getúlio repousa despreocupado à sombra de um pé-de-cedro, nada melhor do que admirar o cerrado com seu cigarro de palha a fumegar. Só faltou uma moda de viola para deixar o momento ainda mais perfeito, mas por enquanto bastava a sinfonia dos pardais.

Ele sabia que esta tranqüilidade deixaria qualquer “doutor” da cidade grande morrendo de inveja. Mas de repente, este silêncio deu lugar a um grande alvoroço, era Chico pé-pé fugindo dos contínuos rasantes de um quero-quero enfurecido. Após muitas pernadas, Chico pé-pé conseguiu escapar do seu perseguidor e ao avistar Getúlio decidiu ir tirar um dedo de prosa.

- Tarde, Getúlio. – disse ainda se recompondo do ataque.

- Tarde, Chico. Quase que você dança companheiro. – falou Getúlio apontando para o quero-quero que ainda olhava desconfiado.

- Quase, mas isso não é nada pra quem tá acostumado a correr de onça. – falou Chico pé-pé se promovendo.

Getúlio conhecia bem o amigo e sabia que não era uma pessoa de contar vantagem. Por isso, se Chico pé-pé falou, é porque é verdade.

- O que você está fazendo aqui, meu amigo? – disse Chico.

- Descansando um pouco. – falou Getúlio se espreguiçando.

- Não sei como você se cansa tanto sem trabalhar. – falou Chico pé-pé intrigado.

- Eu já te disse, Chico. Eu costumo pensar muito e isto cansa demais. – se defendeu Getúlio.

Chico pé-pé sabia que o amigo não era preguiçoso, então se ele estava falando, é porque é verdade.

- No que você pensou hoje, Getúlio? – Chico pé-pé era muito curioso.

- Na origem da vida. – Getúlio tinha a resposta na ponta da língua.

- E como é isso? – perguntou Chico sem saber muito do assunto.

- Em minhas reflexões descobri que são as onças que trazem os bebês. – pronunciou de forma intelectual.

- Mas, eu ouvi que eram as cegonhas. – Chico pé-pé confiava no amigo, mas havia ficado na dúvida.

- Preste atenção que vou lhe explicar. Ouvi a Dona Tereza dizer ao filho que este nasceu depois dela conhecer um “gatinho”. Assim, percebi que ela usou a palavra “gatinho” para não assustar a criança. Porque de fato, só pode ter sido uma onça. – justificou brilhantemente Getúlio.

- Entendo, mas deixa eu te contar. – disse Chico. – Eu também ouvi a Dona Lourdes falar para sua filha que foi um “passarinho” a causa de sua chegada. Assim, concluí que ela na verdade falava da cegonha. – Chico pé-pé também possuía fortes provas.

- Já sei como vamos tirar isso a limpo. – Getúlio era um gênio. – Chico pé-pé, quando você corre das onças, elas carregam junto de si um bebê?

Chico pé-pé ficou a pensar, pois um de seus exercícios prediletos era correr das onças logo que acordava.

- Getúlio, elas não trazem criança nenhuma. – falou convicto.

- Então, você tava certo. Eu me enganei, a origem da vida é com a chegada das cegonhas. – Getúlio assumiu seu pequeno equívoco.

- Eu também acho, amigo. – Chico pé-pé sabia que até os gênios erravam.

O dedo de prosa havia sido longo e a noite já se aproximava.

- Bom, Getúlio. Está anoitecendo, vou-me embora pra casa. – falou Chico em tom de despedida.

- Vou com você, Chico. – Getúlio ponderou que realmente estava tarde.

- Ótimo, assim poderemos ir conversando. – Chico ficou feliz pela companhia do amigo.

Os dois pegaram a estrada de terra, agora só parariam quando chegassem ao lar.

- Getúlio.

- Fala Chico.

- Fiquei pensando, não tenho visto muitas cegonhas. Será que elas estão em greve?

 

Autor: Eriol

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